Olha, Rita, nem imaginas o aperto em que estou por causa da minha mãe. O meu irmão, o Luís, faz questão de que ela não vá para um lar, mas ao mesmo tempo não a quer levar para casa dele, diz que não há espaço. Já estamos há três meses nisto, sempre a discutir sobre o mesmo.
A minha mãe, desde aquele AVC há meio ano, ficou muito diferente. Perdeu a autonomia, esquece-se de tudo, precisa mesmo que alguém esteja sempre com ela. Eu sinto-me como se estivesse a tomar conta de uma criança. Mas eu tenho um trabalho, a minha casa, o Diogo e os miúdos… Como é que devo dividir-me? Já sugeri pô-la num lar, mas o Luís acha que isso é uma crueldade, começa logo a acusar-me de não ter coração até parece. Só que ele também não quer saber de alternativas e recusa-se a trazê-la para o apartamento da Mariana, onde vive com ela.
A nossa família sempre foi unida, o típico núcleo de quatro. Eu e o Luís, quase da mesma idade só nos separa um ano. Os nossos pais tiveram-nos tarde. Agora tenho 36 anos, o Luís faz 35 este ano. A mãe já tem 72. Até o pai morrer, tudo corria normalmente.
A seguir o Luís foi estudar para Lisboa e acabou por lá ficar, casou-se, fez a vida dele. Eu fiquei pelo Porto, depois de casar comecei por arrendar casa. Pensámos que mais tarde compraríamos o nosso cantinho, construiríamos família. Enfim, planos de qualquer casal.
O problema começou há dois anos, quando o pai faleceu. A mãe ficou perdida, sempre triste, parecia que envelheceu de repente. Depois ficou doente, e veio o AVC. Pensámos mesmo que não ia aguentar. No início quase não falava, o corpo não respondia. Com o tempo, recuperou a mobilidade, mas a cabeça nunca mais foi a mesma.
Os médicos disseram logo que seria assim, sem melhorias. Então, claro, tive que ser eu a tratar dela. Eu e o Diogo mudámo-nos para o apartamento da mãe, tive de arranjar trabalho como freelancer para poder ficar por perto. Ela não pode ficar sozinha de maneira nenhuma. E ainda assim não é nada fácil.
A mãe fala coisas desconexas, desorienta-se, às vezes foge, é um filme para a trazer de volta a casa. Chora, diz que o pai a espera algures. Olha, é duro. Não durmo bem, tenho medo que ela desapareça. Quase não conseguia trabalhar, não me consigo concentrar em nada durante tempo nenhum. O Diogo sugeriu logo um lar, disse que o mais importante é alguém cuidar dela, que devíamos pedir ao Luís também para ajudar a pagar, até porque não é barato, são 1700 euros por mês num sítio decente.
Andei semanas a pensar, mas percebi que não há alternativa. Quanto tempo é suposto aguentar assim? No lar pelo menos tinha enfermeiros e acompanhamento médico fui lá ver as condições, tudo limpo, agradável, mas mesmo assim o preço mete medo.
Liguei ao Luís e expliquei tudo, de coração aberto, à espera que ele compreendesse. Mas não, ficou danado, que como é que penso em pôr a mãe num lar, que ia ser tratada como uma estranha, que não se sabe como é que são as coisas nesses lugares, que não tenho sentimentos. Até disse que só queria tirá-la de casa. Nem quis ouvir as razões, nem sequer deixou que lhe explicasse.
Continuei a cuidar da mãe como sempre. Passei a sentir que não tinha força para mais tentei abordar o assunto outra vez, mas nada mudou. O Luís só repete que nunca faria isso à mãe, que ela deu tudo por nós, criou-nos, nunca se queixou do esforço, sempre teve tudo em casa.
Eu também acho que lhe devemos muito, mas porque é que esse peso tem que ser só meu? Se ele não aceita o lar, podia ao menos vir buscá-la, ou ficar com ela uns dias, mostrar toda essa bondade de que fala.
Ah, pois vive com a Mariana, é casa dela, não acredita que ela aceitasse ficar com a sogra. Pois comigo o Diogo também está a lidar com a sogra, não é? Só que ele ajuda e ela não?
Disse-lhe que se quer tanto saber, então mudem-se os dois para aqui, tomem conta dela. Ele hesita, diz que não pode, que o trabalho não lhe deixa sossegos, mas na verdade acho que não quer mesmo responsabilidades.
Estou a viver à beira do colapso. Sei que a única solução é mesmo o lar, vai ser melhor para todos. Mas assusta-me ser chamada de ingrata, a filha que abandona a mãe. O Diogo insiste que ela será bem tratada, e que temos também que viver a nossa vida. Por muito duro que seja, ele está do meu lado.
Decidi dar ao Luís até ao fim da semana para vir cá, mostrar uma alternativa. Se não aparecer, vou ter que avançar. Melhor assim, para todos. Vou pô-la no lar. Só quem passa por isto sabe como é exaustivo cuidar de alguém doente. E depois, o Luís que invente as desculpas que quiser para os amigos dele já chega de hipocrisia.






