Há uns dias atrás, o meu filho resolveu chegar cá a casa com a sua namorada. E olha, para dizer a verdade, ela parece-me mais da minha geração do que da dele aponto uns quatro ou cinco anos abaixo de mim. É isso mesmo: o meu rapaz está apaixonado por alguém quase do meu tempo e, para coroar o bolo, quer casar com ela. E como se já não fosse suficiente, eis que descubro que a moça tem uma filha pequena.
Recebi as duas com aqueles modos que Deus me deu. O importante é o meu filho estar contente e, claro, eu também fico satisfeita. Mas precisava de desabafar. Assim que elas saíram, peguei logo no telefone e liguei à minha amiga Matilde aquela que é o verdadeiro calmante lá do bairro, sempre pronta para o que der e vier, e com conselhos infalíveis, testados e comprovados por mim ao longo dos anos. Contei-lhe tudo, escarrapachei o coração, e pedi-lhe aquela orientação básica de quem sabe o que faz.
Falámos até as vozes quase se gastarem, e só parámos porque o meu filho chegou de surpresa, com cara de quem vai tomar grandes decisões. Confesso que tremi, pois pensei: Vem mais bomba aí. E não é que veio mesmo? Mãe, quero que ela e a filha venham morar connosco, sai-lhe da boca assim, sem anestesia.
Fiquei sem saber por onde começar, mas lá engoli em seco e disse: Sim, deixa-as vir. Ele ficou radiante e foi logo dar as boas novas à namorada.
Na minha cabeça, uma interrogação constante: Não será que esta mulher só está de olho na nossa casa grande ali nos Restauradores e na nossa bonança de euros, e agarrou-se ao rapaz só por causa disso?
Com esta ideia a remoer, lá adormeci. E sonhei com o meu marido, que já partiu há uns anos, a assegurar-me: Está tudo bem, Maria. Acordei na manhã seguinte a sorrir só de pensar o meu filho já tem idade para saber das coisas da vida, e se meter o pé na poça, há sempre tempo de enxugar.






