A sogra cochichava pelas costas:
— O que estás a dizer, Marina Ferreira?! — A voz de Ludmila Costa tremia de indignação. — Como podes espalhar essas coisas sobre a minha nora?
— Mas o que foi que eu disse? — fingiu surpresa a vizinha, ajustando os óculos. — Não falei mal dela, só comentei que a tua Leonor anda estranha ultimamente. Ou está muito cansada, ou…
— Ou o quê? — Ludmila deu um passo em direção à cerca. — Acaba lá essa frase!
— Não sei… — Marina baixou a voz, mas só o suficiente para que os vizinhos escutassem. — E se ela estiver… grávida? E a esconder? Já são três anos de casamento e nada de filhos…
Leonor parou atrás do portão, apertando o saco de pão que trouxera da mercearia. Ouvira a conversa por acaso, mas agora não conseguia mover-se. O coração batia tão forte que parecia ecoar pelo bairro inteiro.
— Marina, pára de inventar! — a sogra revirou os olhos. — Eles são jovens, estão a construir carreiras. A Leonor trabalha no banco, tem um cargo importante. Agora não é hora para filhos.
— Ah, sim, carreira… — a vizinha alongou as palavras. — Mas eu reparo como ela sai de casa de manhã. Pálida, olheiras… E anda sempre na mercearia, coisa que antes não fazia. E ontem vi-a em frente à farmácia, a olhar para a montra durante séculos…
Leonor sentiu um arrepio. De facto, estivera na farmácia, a encarar os testes de gravidez, mas não tivera coragem de comprar. O medo a paralisava há semanas — medo do desconhecido, de falar com o marido, de toda a vida mudar.
— Deixa-te de histórias! — Ludmila ficou séria. — A Leonor é uma boa rapariga, trabalhadora. Se houvesse algo, contava-me logo. Nós damo-nos bem.
— Dão-se bem… — repetiu Marina com um tom suspeito. — Sabias que ela liga à mãe todas as noites? Ficam horas ao telefone, mas mal o Diogo chega a casa, desliga logo?
Leonor fechou os olhos. Era verdade. Ligava à mãe todos os dias, especialmente agora. Não para esconder algo da sogra, mas porque a mãe a compreendia melhor.
— E qual é o mal? — defendeu Ludmila. — Toda a gente gosta de falar com a mãe.
— Claro, não há mal nenhum — concordou Marina, mas com um sorriso falso. — Só que a Adelaide contou-me que viu a Leonor no autocarro, a chorar. Enxugava os olhos com um lenço…
Leonor lembrava-se daquele dia. Chorara, sim, mas não por gravidez ou problemas no casamento. Um colega de trabalho, amigo de anos, fora despedido, e o chefe insinuara mais cortes. O medo de perder o emprego, justamente quando ela e Diogo juntavam dinheiro para um apartamento, a assombrava.
— Olha, Marina — a voz de Ludmila ficou firme. — O que queres dizer com isto? Fala claro.
— Nada de especial — a vizinha recuou. — Só acho que ela tem problemas. Talvez no trabalho… Ou… — baixou novamente a voz, — com o Diogo.
— Com o meu filho está tudo bem! — Ludmila ergueu a voz. — Eles adoram-se, isso vê-se!
— Vê-se, vê-se… — murmurou Marina. — Mas reparaste que o Diogo anda a chegar mais tarde a casa? E veste-se mais elegante… Camisa nova, até perfume usa…
Leonor cerrou os punhos. Diogo andava mesmo ocupado no trabalho, mas era um projeto importante, e ele contava-lhe tudo. A camisa fora presente dela, e o perfume também — um mimo que lhe dera.
— Marina — Ludmila falou devagar, mas firme. — Peço-te que não espalhes boatos sobre a minha família. Se tens factos, fala. Se não, cala-te.
— Mas eu só me preocupo! — a vizinha ficou ofendida. — Ela parece precisar de ajuda!
— Se precisar, pedirá — cortou a sogra. — Os teus cochichos não ajudam ninguém.
Leonor ouviu o portão ranger — Ludmila entrava em casa. Marina ficou mais um pouco, resmungando, até desaparecer também.
A rapariga só entrou minutos depois, certa de que ninguém a via. As mãos tremiam ao abrir a porta. Na entrada, Ludmila esperava — alta, cabelo grisalho em coque, olhar penetrante.
— Leonor, onde estiveste? — perguntou, estudando o rosto pálido da nora. — Estás tão branca…
— Fui à mercearia — mostrou o saco. — Ludmila, posso falar consigo?
— Claro, vem para a cozinha. Queres chá?
Sentaram-se à mesa. Leonor girou a chávena nas mãos, sem saber como começar. A sogra aguardou.
— Ouvi a conversa… com a Marina… — engasgou-se.
— Ah, percebo — Ludmila assentiu. — E o que ouviste?
— Ela disse que eu ando estranha… que talvez esteja grávida, ou que há problemas entre mim e o Diogo…
A sogra pousou a chávena.
— E há motivo para esses rumores?
Leonor ergueu o olhar.
— Se estivesse grávida, dir-lhe-ia. Juro. E problemas com o Diogo? Nenhum. Amo-o como sempre. Só que… — hesitou. — O trabalho está difícil. Há despedimentos, e tenho medo de ser a próxima. Estamos a juntar para o apartamento…
— Por que não me contaste? — perguntou Ludmila, suave.
— Não quis preocupá-la. Pensei que resolvia sozinha.
A sogra levantou-se, pôs-lhe a mão no ombro.
— Menina, somos família. Os teus problemas são os nossos. O Diogo sabe?
— Sabe. Apoia-me, diz que vamos resolver. Mas vejo o quanto se preocupa. Ele também anda sobrecarregado no trabalho.
— E a Marina já inventa traições — suspirou Ludmila. — Esta mulher faz tempestades num copo d’água.
— Ela fala assim de toda a gente?
— Infelizmente, sim. Mas hoje tocou-me, porque era sobre ti.
Leonor sentiu os olhos marejarem.
— Doeu ouvir… Como se eu fizesse algo errado…
— Querida — a sogra acariciou-lhe o rosto. — Não fizeste nada de mal. És uma ótima esposa e nora. Os mexeriqueiros sempre arranjam assunto. Ignora-os.
— Mas os vizinhos devem pensar o mesmo…
— E que importa? — Ludmila encolheu os ombros. — Vivemos para nós, não para eles. Acho que devias contar ao Diogo.
— Não — Leonor abanou a cabeça. — Ele já tem stress suficiente.
— Como quiseres. Mas se ouvires mais alguma coisa, avisa-me. Não tolero fofocas sobre a minha família.
Ouve-se passos na entrada. Diogo chegara.
— Mãe! Leonor! Estou em casa! — chamou, a tirar os sapatos.
— Na cozinha! — respondeu a mãe.
Ele entrou, beijou a mulher na testa, abraçou Ludmila.
— Caras tão sérias?
— Conversas de mulheres — a sogra sorriu. — Queres jantar?
— Quero. O que há?
— Aqueço o caldo verde e há bifes — disse Leonor, levantando-se.
— Senta, eu trato disso — Ludmila impediu-a. — Diogo, conta como vai o projeto.
Enquanto a sogra requentava a comida, Diogo fal






